META HTTP-EQUIV="Content-Type" Content="text/html; charset=iso-8859-1"> Crítica à arte contemporânea - Marcos Ribeiro Ecce Ars

Thursday, October 29, 2009

Entrevista de Marcel Duchamp Legendado

Friday, October 23, 2009

"Minha imaginação não cria um mundo, o mundo é que cria minha imaginação". Marcos Ribeiro


Saturday, October 17, 2009

Breve História da Arte - Marcos Ribeiro Ecce Ars

Thursday, March 26, 2009

Os dez mandamentos da Arte Contemporânea

Tuesday, January 27, 2009

A MÚSICA COMO ALIENAÇÃO



“A música deveria inflamar o coração do homem e trazer lágrimas aos olhos da mulher.”
(Beethoven)


Desde que a arte se tornou ideológica, ou seja, a obra deixou de ser um produto artístico estético para se tornar apenas uma ideia. Aliada a ideologia capitalista, a indústria cultural pelos meios da comunicação de massa passou a determinar os modismos, as escolhas e a manipulação do gosto, criando com isso seus deuses e reis.
Na música, considerada por Schopenhauer como “arte suprema”, no século XX com a invenção do disco e do rádio, ela aos poucos começou a se tornar acessível, se globalizando e com isso começou a aparecer os primeiros artistas pop.
Assim como a Alemanha nos séculos passados produziu alguns dos maiores compositores da música erudita, os Estados Unidos por sua vez foi o que mais criou os gênios da música nas últimas décadas, seguida pelos ingleses, mas estes para se afirmarem tinham que se consagrarem em solo americano.
É inegável a contribuição para a cultura à criação dos estilos surgidos na América: O Jazz, o Blues, o Soul, o Rock, o Country. Gêneros que evoluíram e muitas vezes se misturaram para se tornar à base de quase toda música ocidental.
Hoje com as mudanças que ocorreram no mundo a partir das revoluções tecnológicas é impossível dizer que ainda nascerá um fenômeno tal como foi os Beatles, Pink Floyd, Frank Sinatra, Elvis Presley, James Brown, Stevie Wonder entre tantos outros que marcaram seus nomes como clássicos do pop.
Porém, destes que foram grandes nomes e ainda continuam vivos, nem eles conseguem ser eles mesmos, como se suas mentes se atrofiassem para a criação, mas que mesmo assim continuam insistindo em manter o rótulo de pop star, quando gravam um disco novo não conseguem ser nem a sombra dos que foram e quando fazem shows são os famosos “caças níqueis” principalmente nos países de terceiro mundo.
Como é difícil um musico de talento no Brasil ganhar dinheiro, e como é fácil esses velhacos arrastarem multidões a estádios de futebol vendendo apenas a ideia do grande artista que eles foram e não a arte propriamente dita, digo não a arte porque eles mesmos a banalizam transformando-a apenas em industria.
Deleuze disse, a imanência é uma vida, assim então podemos afirmar: como não são chatos, John Lennon, Jimmy Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, que morreram jovens. Não seria nenhum absurdo dizer, os mortos parecem que estão vivos e os vivos parecem que estão mortos, para dar exemplos brasileiros, esses dias ouvindo Renato Russo me dei conta que já faz mais de uma década da sua morte, como? Parece que foi ontem. O mesmo pode-se dizer de Cazuza: sempre jovens é agradáveis.
Outro fator que no Brasil colabora para a subsistência do artista da musica acima da média é o desprezo da grande mídia, assim por não fazerem parte do gosto do senso comum, a obra, por exemplo, de um Tim maia ou Raul Seixas permanece intacta da degradação.
Seguindo essa reflexão de mortos e vivos, creio eu não ser apenas uma questão de opinião, mas de bom senso, o asco que se tornou o “rei” Roberto Carlos e já faz algum tempo, ele seria muito mais ouvido e respeitado se tivesse parado nos anos 80 do século passado.
Chega a ser inaudível suas parcerias com Daniel, Padre Marcelo, Padre Maria e o não menos ultrapassado Caetano Veloso que com suas regravações chegou ao extremo do mal gosto, podendo até manchar uma carreira brilhante de até um tempo atrás, e além do mais, deixem o Tom Jobim em paz.
Se fosse seguido o exemplo de Chico Buarque que percebendo que não atingiria mais o mesmo nível se afastou, nos legando uma obra perfeita e sempre atual; imanente, uma lenda viva.
Se por um lado alguns defendem a morte da arte e esta substituída pela arte midiática ou, a arte que está em tudo, como pode haver essa substituição se arte midiática é artificialmente estimulada pelos meios de comunicação, de maneira alienada?
Como? Se a arte é, por excelência, contestação?
Para ir contra essa corrente sou obrigado a concordar com Nietzsche quando ele diz:
“ E como poderia haver um ‘bem comum’? A palavra comum é sempre coisa de pouco valor.Finalmente, é preciso que seja como sempre foi: as grandes coisas são reservadas aos grandes, as profundas aos profundos, as delicadezas e os calafrios às almas sublimes, numa palavra, tudo que é raro aos seres raros.’
Para esclarecer o porquê desta citação, o que difere um show dos obsoletos Elton John, Madonna, dos atualíssimos Calypso, dos fenômenos sertanejos que aparecem de uma hora para outra, além dos bípedes cantores do funk carioca?
É preciso esclarecer o chamado grande artista da música, não é porque vendem mais discos ou aparecem mais na mídia porque vendem revista e dão audiência e por esse motivo são considerados mitos, como é o caso de Michal Jackson.
Santo bizarro! O que de tão grandioso ele representa para a música?
Uma fase nostálgica de sua infância em comum com a maioria dos cantores lançados pela Motown e o fenômeno de Billie Jean e Thriller, que visto hoje sem a emoção da época chega a ser tão cômico quanto os detentos das Filipinas quando o imitaram.
Depois disso além do declínio e os fracassos de venda o que o deixou em evidencia a não ser a excentricidade?
Alias, nisso ele foi um gênio, mas achar que superexposição pela polemica é sintoma de genialidade,é pecar contra o espírito santo, é pecar contra a arte.
É claro que esse diagnostico de infecção generalizada na música,e na arte em geral, é quase irreversível, dificilmente os Estados Unidos e alguns canais de televisão aqui no Brasil de tempos em tempos não nos apresentarão a nova moda, mas ainda existem alguns músicos escondidos que ainda são autênticos, que nos dão a música com ênfase a melodia, a poesia, a reflexão, mas se o sucesso aparecer sempre irão entrar em um dilema:
Ou vendem a alma para o diabo, ou sobrevivem no inferno.

Marcos Ribeiro
Verão de 2009

Sunday, November 09, 2008

A MALDIÇÃO DE PLATÃO


“Mas as sereias têm uma arma
Muito mais terrível que seu canto:
O seu silêncio.”

Franz Kafka


Imaginemos que até o começo do século XX, as pessoas viviam acorrentadas no interior de uma caverna, atrás delas queimava uma fogueira, e à arte que todos contemplavam eram às sombras ( ou sonhos) que refletiam do mundo real.
A arte até então não era o realismo, do mundo, mas às sombras da alma e do coração dos artistas.
O público que ali vivia, sonhava com as dores do poeta, com a imaginação criadora dos pintores e escultores, se condoíam das angustias dos escritores, choravam com as notas musicais que o músico exaltava.
Até que um dos habitantes da caverna se libertou das correntes e saiu para o encontro do mundo real, descobriu que a arte deste mundo real não é a do ideal greco-renascentista-romântico, mas a da razão, do cerebral, ou resumindo em uma única palavra: do conceito.
Ele vê que à arte da época não responde as questões humanas, apenas engana. Assim esse fugitivo procura algo que possa representar a realidade, apanha um urinol e leva aos habitantes da caverna.
Ao retornar, mostra o urinol e a sombra do mesmo na parede, em seguida joga fora a peça sanitária, e diz que o que eles vêem na parede são mera ilusão, e o que de fato existe é a idéia da obra de arte que representa o mundo real, sem transcendentalismo, mas tal como ela é.
Todos acreditam nele, exceto os artistas que por isso são assassinados.
A partir de então todos buscam o seu urinol perdido, uns o representam por guarda-chuvas, outros por perucas, outros coiotes, e outros se auto mutilam e etc.
Muito bem, todos perceberam que fiz uma paródia do mito da caverna de Platão escrita entre 427 e 347 antes de Cristo. Será que ele imaginaria que seu projeto de expulsar os poetas e os artistas e deixar no mundo apenas a razão se concretizaria e se consolidaria de fato a partir da metade do século XX ?
Sim Platão, A poesia está morta; você venceu! Todos adoram o seu mundo-verdade, das igrejas e das bienais, sobrou é certo, poucos que ainda vivem no mundo das sombras, os “errantes loucos anacrônicos”, que festejam a angústia da existência na arte do passado, que negam a pós-modernidade, esta anestesia na realidade, da ciência e da razão.
Nós, os loucos; que cultuamos Dioniso na irresponsabilidade da pintura, da poesia e da filosofia.
Nós os loucos que dizemos para a razão: sair da caverna pra que?
Pra que abandonar Dostoiévski para ir ver a Bienal, que faz a mesma denúncia dos telejornais sangrentos?
Que só gritam e na realidade não resolvem nada.
O que, meu caro; você me chama de desatualizado? Me atualizo lendo Homero, Horácio, Spinoza, Shakespeare, Erasmo, este último que diz algo semelhante em seu Elogio da loucura:
“ Que diferença há entre aqueles que, na caverna de Platão, contemplam as sombras e as imagens dos objetos, nada mais desejado e satisfeitos com isso, e o sábio que saiu da caverna e viu as coisas como realmente são?
Se Micilo de que fala Luciano( Personagem do livro O sonho ou o galo. O paupérrimo Micilo sonhou que ficara rico e que estava desfrutando de toda sua riqueza, quando um galo o despertou com seu canto. Ao ver seu belo sonho interrompido, ficou tão furioso que quase matou o galo), tivesse podido continuar para sempre em seu sonho dourado, em que figurava como rico, que outra felicidade podia almejar?”
Sim, nós que cultuamos a arte somos como Micilo, ficamos na caverna sonhando dentro do sonho, rejeitamos a razão por sermos loucos, poetas, anacrônicos*, e por que não dizer: Felizes!

Marcos Ribeiro
Primavera de 2008


*Anacrônico: em que está em desacordo com a moda, avesso aos costumes atuais.
Imagem: caverna de Platão (Soccio, 1995)

Wednesday, October 29, 2008

NIETZSCHE CONTRA DUCHAMP

INTRODUÇÃO

“Todo o meu devir filosófico foi determinado por Heidegger. Mas reconheço que foi Nietzsche que me fascinou.” (Michel Foucault)

“Nietzsche alcançou grau de introspecção anímica que jamais foi alcançado por alguém e dificilmente alguém voltará a alcançar um dia” (Sigmund Freud)

“ Nietzsche é um instrumento de trabalho insubstituível” ( Gerard Lebrun)

“A história do pensamento ocidental é dividido em dois períodos, antes e depois de Nietzsche” (Karl Jaspers)

“ O mundo onde nós existimos em termos de pensamento é um mundo cunhado pelas figuras de Marx e Nietzsche” (Max Weber)

“Nietzsche é o primeiro a ensinar-nos que não basta matar Deus para operar a transmutação de todos os valores. Na obra de Nietzsche as versões da morte de Deus são múltiplas, uma quinzena pelo menos, todas de uma grande beleza” ( Gilles Deleuze)

“ Para a conquista das mais lídimas virtualidades do ser é que Nietzsche ensina combater a complacência, a mornidão das posições adquiridas, que o comodismo intitula moral, ou outra coisa bem soante” (Antonio Candido)

Wednesday, October 15, 2008

NIETZSCHE CONTRA DUCHAMP


“Somente as obras de arte legítimas, sorvidas diretamente da natureza, da vida, como estas permanecem eternamente jovens e originarias. Pois não pertencem a uma época em particular, mas à humanidade.”
Arthur Schopenhauer

Quando uma criança começa a desenvolver seu lado da duvida, da liberdade, da imitação por volta dos dois anos, quando ela faz algo em que os pais ficam apavorados, estes logo recorrem ao superior invisível, para através da ameaça livrar-se do problema:
- Papai do céu castiga- Papai do céu não gosta.
E assim toda criança filha de pais religiosos desenvolvem um dogma que ao crescerem, esse papai do céu se transformará no super-herói-Deus, aquele que salva, dá, mas que ainda castiga a criança crescida.
Bom, isso é outra historia, fiz essa ilustração para fazer uma relação com que irei discutir nesse texto, a arte contemporânea. Alguém que não estudou artes sabe o que isso significa?
Se não, não é complicado. Tudo começou quando o francês Marcel Duchamp enviou em 1917 um urinol a um salão de artes e que mesmo não sendo aceito, depois se tornaria a pedra fundamental para a construção de uma realidade não artística até os dias de hoje.
Por que fiz essa relação de Deus e arte contemporânea?
Se a física é a ciência que estuda as propriedades materiais e suas leis, a metafísica é o estudo dos limites da experiência possível, a causa primeira do ser, o ser em si etc.
Deus é metafísico porque não é possível estudá-lo por meio da física, ele apenas existe pela fé, pela crença.
Para a criança que cresce no Afeganistão será Allah, para a que cresce em Israel será YAHVEH e assim por diante.
Voltando ao conceito “arte contemporânea”, todo aluno antes de entrar numa faculdade de arte -ou outro curso que ensina o assunto- aprendem até o ensino médio a arte até o modernismo, podem até ter ouvido falar de Duchamp e seus seguidores, mas raramente, desde que pesquisei até então, sabem que o urinol é algo sagrado e oficializado como único modelo.
Pois bem, se não podemos ver Deus, também não há como ver arte em um urinol e seus congêneres, é preciso- como na religião que tem a teologia para explicá-la- dos teóricos da arte para explicar que Duchamp quis contestar os valores artísticos até então. Até aí tudo bem, teve e tem o seu sentido histórico dentro da historia da arte, mas o que se fez até então de repetição do mesmo código e do assassínio da tradição, se tornou em uma arte que ninguém vê, apenas acredita, logo metafísica.
Quantos caminhos Van Gogh, Cézanne, Picasso, Dali, Magritte, Klee, Rousseau, Matisse, Hopper, Munch, abriram e somaram com os mestres do passado. Pra que?
Para ser negado por um sistema único que parece mais com brincadeira de ciranda!
Arte contemporânea e religião são idênticas em vários pontos:
A bíblia judaica-cristã se divide em dois testamentos, o velho e o novo, o das leis e o do redentor.
Assim é a arte, o velho testamento é até o modernismo com ênfase a técnica, o talento, a criatividade; já o novo traz a mensagem do redentor Duchamp: a ausência dos valores e a liberdade total.
Os cristãos têm a cruz como ícone máximo, os contemporâneos, o urinol.
Algumas religiões usam a pratica do culto a símbolos: roupas, animais mortos e objetos diversos, sacrifícios humanos; a arte contemporânea, idem.
E nessa onda de destruição das artes plásticas, levaram com ela o romance, a musica, a poesia, todos de mãos dadas seguindo a vanguarda, rumo ao nada!
E tudo isso muitos atribuem a um pensador: Nietzsche! O destruidor de valores, do cristianismo, da razão na filosofia, da moral, contestador do bem e do mal, da verdade e da mentira. Como o filósofo via a arte, eu pensava, será ele mesmo o pai do contemporâneo?
Será Marcel Duchamp o além-do-homem que Zaratustra anunciara?
E agora que li o filósofo, eu o parafraseio:
O nada se chama Duchamp!
Já em A filosofia na época trágica dos gregos, Nietzsche ataca Platão por expulsar os poetas de sua Republica utópica:
“A poesia poderia talvez, se a obrigassem a falar, dizer: Povo miserável! É culpa minha se em vosso meio vagueio como uma cigana pelos campos e tenho de me esconder e disfarçar, como se fosse eu a pecadora e vós meus juízes? Vede minha irmã, a arte! Ela está como eu: caímos entre bárbaros e não sabemos mais nos salvar, aqui nos falta, é verdade, justa causa: mas os juízes diante dos quais encontraremos justiça têm também jurisdição sobre vós e vos dirão:- Tende antes uma civilização, e então ficarei sabendo vós também o que a filosofia quer e pode.”
Isto, não está acontecendo de fato, hoje?
Pois na Europa, nessa época, fervilhava de gênios, e assim Nietzsche não estaria sendo o profeta da crise pós Duchamp?
Beuys, apóstolo de Duchamp, nos anos de 1960, afirmou que todo mundo é artista, e com isso decretou a liberdade total na arte, o artista passou a ser o terrorista conceitual da burguesia e conseqüentemente do grande público, já que tudo pode, mas o que Nietzsche diz sobre a liberdade, em Crepúsculo dos Ídolos ele é categórico ao afirmar:
“ Meu conceito de liberdade.- O valor de uma coisa não está às vezes naquilo que se alcança com ela, mas naquilo que por ela se paga- no que ela nos custa. Dou um exemplo. As instituições liberais tão logo são alcançadas: mais tarde, não há piores e mais radicais danificadores da liberdade, do que instituições liberais. Sabe-se, até, o que elas conseguem: minam a vontade de potencia, são a nivelação da montanha e vale transformada em moral, tornam pequeno, covarde e guloso - com elas triunfa toda vez o animal de rebanho.”
Em suma, a liberdade que Duchamp e seus apóstolos propuseram se transformou nesse “vale de moral” anunciada por Nietzsche, moral hoje manipulada por radicais que só aceitam como “arte” as obras do molde: o urinólismo!
Chamo de “urinólismo” porque arte contemporânea foi uma apropriação arbitraria de um nome, que não deixa saída, afinal toda arte é contemporânea a sua época, mesmo a rejeitada pintura.
E tudo isso novamente tem uma semelhança com o cristianismo: todos são iguais diante de Duchamp. E por isso não pode haver o grande artista, o nivelamento da montanha, que em Assim Falou Zaratustra, Nietzsche outra vez sentenciou:
“Com esses pregadores da igualdade é que eu não quero ser confundido. Porque a justiça me fala assim: ‘Os homens não são iguais’.”
Quanto! os teóricos da arte, o público, não perdem com essa não-arte: passional sem paixão, que usa a negação do prazer estético em prol do choque, do que horroriza e na maioria dos casos, do feio, como é contraditório com que o autor alemão refletiu Em Humano Demasiado Humano sobre a função da arte:
“ Contra a arte das obras de arte.-A arte deve antes de tudo e em primeiro lugar embelezar a vida, portanto, fazer com que nós próprios nos tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros... Deve proceder desse modo especialmente em vista das paixões e das dores e angustias da alma.”
Assim a doutrina nietzschiana não é a da efêmera, repugnante, depressiva, como ele também disse em O nascimento da tragédia:
“Aqui, neste supremo perigo da vontade, aproxima-se, como uma feiticeira salvadora, com seus bálsamos, a arte; só ela é capaz de converter aqueles pensamentos de nojo sobre o susto e o absurdo da existência em representações com as quais se pode viver.”
Mais adiante ele acrescenta:
“ ‘Acreditamos na vida eterna’ assim exclama a tragédia; enquanto a musica é a idéia imediata dessa vida. Um alvo inteiramente diferente tem a arte plástica: aqui Apolo supera o sofrimento do individuo pela luminosa glorificação da eternidade do fenômeno.”
Portanto, com isso, comprovasse que Nietzsche é a antípoda de Duchamp, a eternidade do fenômeno em oposição à novidade proposta pelos contemporâneos. Novidade que se repete por ter se esgotado em todos os seus caminhos.
Entretanto até aqui Nietzsche fez apenas o diagnostico da crise, mas em Crepúsculo dos ídolos ele sugere um caminho para a salvação:
“Ainda há hoje partidos que sonham em fazer com que as coisa caminhem para trás como os caranguejos. Mas ninguém é livre para ser caranguejo. Não é possível: é preciso ir para frente, isto é, avançar passo a passo mais adiante para a decadência ( está é a minha definição do ‘progresso’ moderno...) Pode-se pôr obstáculos a esse desenvolvimento e, ao travá-lo, criar uma ressurreição da degenerancia, concentrá-la, torná-la mais veemente e mais repentina: aí está tudo que se pode fazer.”
Ou seja, voltar como no renascimento, voltar para ir para frente e travar os caminhos que levam ao labirinto do Minotauro Duchamp.
Não será fácil, mas tenho fé em Nietzsche, que esse artista que vagueia escondido e disfarçado, ressurgirá, o artista tal como o filósofo mencionou em a Genealogia da moral:
“O artista perfeito e completo está desde toda a eternidade separado da realidade, daquilo que é efetivo; compreende-se, por outro lado, que às vezes possa estar cansado até o desespero dessa eterna ‘irrealidade’ e falsidade de sua existência mais intima.”
E que a profecia de Zaratustra se cumpra:
“ Tudo que vai, torna, a roda da existência gira eternamente.Tudo morre; tudo torna a florescer.”

Marcos Ribeiro
Primavera de 2008
*Imagem- Professor Nietzsche por Marcos Ribeiro

Thursday, November 15, 2007

Diálogo entre um ateu e um crente

- Você não gosta de arte contemporânea?
- Não, sou ateu.
-O que! Você não crê em Duchamp, Hélio Oiticica,Lygia Clark, Pape, Marepe e Leda Catunda?
-Não, não consigo ver arte no que eles dizem ser arte, nada do que eles fizeram me emociona, me comove, me faz pensar na vida; Sempre fui indiferente a tudo isso.
- Mas seus pais( seus professores) não te ensinaram que a arte contemporânea é a arte oficial, e aceitando-a você se torna cult, intelectual?
- Se ser cult é contemplar, idolatrar perucas, fuscas pendurados, bidês, guarda-chuvas, pneus, latinha de merda, então prefiro ser um alienado.
- Mas você não gosta por que não entende , você estudou arte?
- Sim, me formei em teologia da anti-arte, mas fugi e voltei aos vivos: Hopper, Francis Bacon, Magritte,Dali, Da Vinci, Picasso, Cézanne, Klee, Rembrandt, ou seja, só acredito no que vejo, só acredito nos vivos.
-Mas você não teme ser queimado na inquisição, ou ser considerado um louco, um Dom Quixote?
- Não, quem sabe não consigo fazer uma reforma na igreja, assim como fez Lutero, pois a contra- reforma já possui muitos seguidores.

-Tudo bem então, aproveito para lhe contar um segredo: Já faz algum tempo que percebi que os pastores e os bispos que mandam na arte só pensam no dinheiro dos fieis, mas defender a arte contemporânea da um certo ar de intelectual, e isso da status.


Marcos Ribeiro

Sunday, March 04, 2007

TRATADO SOBREA A ARTE CONTEMPORÂNEA


Diante do fenômeno da arte atual, ou seja, da arte oficial chamada contemporânea, que é aprendida e vista nas instituições oficiais, chega-se a uma conclusão: a arte se tornou um “sistema”, uma “seita fechada” comparada com uma religião, uma “opus dei” que somente os cardeais, que são os curadores, galeristas, (a)críticos, semioticistas e certos professores universitários têm acesso ao entendimento.
Qual seria a utilidade de tal arte?
Se o utilitarismo da arte na Grécia existia em função do culto dos deuses e serviu de base e inspiração para a igreja que passou a controlar a arte da Idade Média ao Barroco, no Romantismo houve uma mudança e a arte passou a privilegiar a subjetividade individual do artista.
Essa subjetividade individual atravessou o século XIX e chegou ao século XX. Os modernos, mesmo rompendo com o padrão clássico grego (seja no romantismo, impressionismo, cubismo, surrealismo, expressionismo etc), atacando o belo tradicional, mesmo assim fizeram uma arte que sempre esteve direcionada para outras formas de belo, mesmo que fosse o belo do horror , como no romantismo ou na arte de Picasso; o belo infantil, como no fauvismo de Matisse; ou até no belo clássico do surrealismo de Salvador Dali.
Mas como a palavra de ordem no início do século XX era o modernismo, em virtude do avanço da revolução industrial, no pós- guerra a palavra de ordem mudou para pós- modernismo. E enquanto as bombas destruíam parte do mundo, os pós-modernistas destruíam os valores artísticos, na literatura, na música e nas artes plásticas.
Pegando carona no movimento dadaísta e com sua obra-base, o “urinol” de Duchamp, de 1917, nos anos de 1960 os conceitualistas fundam um movimento em que a obra é substituída pela idéia, negando a estética, o luxo e os museus. Buscaram uma realidade não artística, e que ficou conhecida como arte conceitual ou antiarte. A arte para eles existia para o agora, eliminando o suporte material, e deveria estar submissa apenas ao plano mental de sua criação.
Já nos anos de 1970, pela primeira vez na história da arte o mercado funda um movimento artístico, se apropriando das idéias dos conceitualistas, mas fazendo uso do suporte para se comercializar. Surge então a Arte Contemporânea, uma arte conceitual, mas agora dependente do objeto
Voltando ao início do texto quando disse que a arte virou um sistema, ou uma seita fechada (por que pouquíssimas pessoas a entendem); por outro lado milhares de pessoas vão visitar esses espaços de arte e até dizem gostar. Como é possível dizer que é arte isso que se instalou no lugar da arte? Carros alçados por fios de nylon , toras de madeira, guarda-chuvas, ferramentas de pedreiro, pratos, lugares vazios, só para dar um pequeno exemplo de obras que foram apresentadas nas ultimas duas bienais de São Paulo, a 26º e a 27ª edição.
Para achar uma resposta para tal fenômeno é preciso retornar ao auge da arte conceitual:
Um dos maiores nomes do movimento foi o irônico Joseph Beuys, e foi ele quem deu a direção de como o mercado e o sistema faziam para as pessoas crerem que estão vendo arte aonde não existe arte.
Se a anedota de Picasso foi verídica, que ele fazia rabiscos no guardanapo para pagar contas em restaurantes, ou Duchamp que desenhou um cheque para pagar o dentista, Beuys foi além: fez uma performance que é vista no vídeo “todo mundo é artista” em que ele assina as roupas das pessoas andando na rua e essas roupas se tornam obras de arte, eliminando assim o suporte artístico tradicional, a obra misticamente é substituída pelo fetiche desde que o artista possua uma aura criada pelo marketing. Essa aura é o seu próprio valor de mercado, seu nome transformado em mercadoria de luxo.
Mas foi em sua performance: COMO ENSINAR ARTE A UMA LEBRE MORTA, que foi dado o toque de Midas.
Beyus com o rosto coberto de gordura é fotografado segurando no colo uma suposta lebre morta ; e parafraseando a lenda de Andersen “A roupa nova do imperador”, as pessoas vêem arte em tudo que é dito ser arte, eliminando o senso critico por medo de serem tachadas de ignorantes ou melhor: lebres mortas.
Diante desse distanciamento entre arte e pessoas comuns, a arte fica nas mãos dos que sabem ler os códigos caros aos semioticistas, que utilizam-se de todo um aparato cientifico para entender e decodificar a mensagem dos ditos artistas, deixando os críticos, historiadores e filósofos da arte em ultimo plano.
O prazer estético que existia entre o público e obra de arte da lugar à razão cerebral dos intelectuais. E a arte, que até essa separação era um momento de êxtase entre artista e público, é substituída pela ciência da semiótica e podemos trazer novamente em questão o que Nietzsche disse sobre a ciência há mais de cem anos:
“O cientista é o ‘homem sanguessuga’ que substituiu o culto dos valores divinos pelo culto da ciência.”

*** MARCOS RIBEIRO ***
Fevereiro de 2007

Friday, September 29, 2006

A arte que ninguém vê

Uma das características do ser humano quer seja ele cético ou não, é a lei de Tomé: "ver para crer”.
Por mais que se acredite em algo (um político, uma teoria, uma fantasia) Somente se tornado fato é que é possível ter a certeza. Certeza que é uma das necessidades humanas.
Com exceção dos crentes e místicos que ocorre o contrario: crêem para ver, fenômeno compreensível por ser uma cultura milenar.O que é impossível de se entender para o ser humano comum é o fenômeno da arte contemporânea: “Não ver e crer"
Mesmo com a definição da arte consolidada a mais de quinhentos anos no Renascimento; da arte desde a pré-história até a arte da metade do século XX, O público se não entende na sua totalidade, pelo menos aceita e crê que o que está vendo é arte.
A partir do dadaísmo, que foi criado num tom de brincadeira e se tornou sério, até chegar na arte atual, é inacreditável o que é apresentado e aceito como arte: Pedaços de carne apodrecendo no museu, tripas com sangue, burros, carros pendurados, malas e sapatos velhos, perucas; e como todo homem de bom senso não vê arte nisso, aquilo é aquilo mesmo, mas leva o nome de arte, como se fosse no sentido de metáfora, sem semelhança ou de metonímia, sem relação. Na pior das hipóteses algumas coisas podem ser consideradas interessantes, mas não arte, e que ficariam bem numa exposição de "coisas interessantes", como aquelas exposições de invenções malucas.
E o que deveria ser apresentado como verdadeira arte, verdadeira por ser secular e que vive e sobrevive independente do sistema, o mesmo sistema que tenta matar essa cultura como matam a cultura indígena, oferecendo novas tecnologias, mas que nunca deu certo por que arte não se adquire com títulos, arte é necessidade vital para o homem diferente que tenta revelar os mistérios da existência, como disse Stella Adler: “A vida bate e estraçalha a alma e a arte nos lembra que você tem uma”.


Marcos Ribeiro
30 de setembro de 2006

Tuesday, September 19, 2006

A ERA DA REPRODUTIBILIDADE DA AURA NA OBRA DE ARTE

Muito se discutiu sobre arte contemporânea nos últimos tempos - embora muito pouco divulgado esse debate – nunca na história da arte um movimento foi por tanto tempo negado, bombardeado e permanecido estático, sem reagir.
Os defensores permanece há décadas dizendo que só no futuro será compreendida a produção artística de hoje, será a Leda Catunda o Kandinsky de amanhã?
Outro argumento usado pelos advogados do sistema das artes: Curadores, professores, críticos, artistas é o ensaio de Walter Benjamim, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, que, com a descoberta da fotografia, a função social da obra desloca-se do ritual para o político, rompendo com a aura que antes seria da Monalisa, a aura compromete-se com o efêmero, a simulação, a novidade.
Com isso a aura que pertenciam a artistas que além de serem gênios criadores e dominadores da técnica, se democratiza, transferindo a aura para o homem comum, surgindo a cada ano centenas de milhares de artistas no circuito artístico.Espaço que até então era disputado na Europa por Picasso, Salvador Dali, Magritte, Mondgliani, Matisse, Fernand Leger, Klimt, Paul Klee, Munch e no Brasil Portinari, Di Cavalcanti, Pancetti, Guignard, Antonio Bandeira, Ismael Nery entre tantos outros.
Liberdade, pra que? Ou, Técnica, pra que? Certa vez ouvi que técnica se aprende e até um animal, se treinado aprende, Como gostaria que meu gato tocasse Mozart ou meu cachorro reproduzisse a Escola de Atenas de Rafael.
E depois de quase um século do ensaio de Walter Benjamim, no que se transformou a aura da obra de arte?
A aura não teria sido transferida da Monalisa para o urinol? Não estaria nas obras de Beyus, Manzoni, Lygia Clark, Hélio Oiticica? Ou pior ainda, não estaria nas etiquetas coladas ao lado das obras?
Pois, supomos que, se tirassem às etiquetas de uma exposição de arte contemporânea (mesmo arte contemporânea de 50 anos atrás) seria o mesmo que jogar inseticida numa caixa com baratas dentro, as pessoas não saberiam se a cadeira é uma obra, se a porta é a saída ou se o vaso sanitário faz parte da exposição.
Assim atravessou o século XX, e já estamos entrando para a quarta bienal de artes de São Paulo no século XXI, e como estamos na era do clone, logo veremos o clone da Bienal de Veneza, uma fábrica de novos artistas e de dinheiro, disputando o quarto poder com as igrejas e o jogo de azar.

Marcos Ribeiro
19 de setembro de 06

Saturday, August 19, 2006

O FIM PERTO DO FIM

“O mundo é um inferno habitado por espíritos atormentados e demônios”
(Schopenhuer)



O inicio do século XXI está marcado e entrará para história como a explosão dos atentados terroristas, religioso e criminoso.
Entramos num dilema: ou somos homens-bomba ou somos conformistas.No Brasil vimos o messias das massas, um presidente salvador ser a decepção; o fantoche ou o cabeça da máfia?
Fazer o que? Deixar como está ou colocar uma bomba no planalto central?
O capitalismo e a revolução tecnológica avançam num ritmo frenético, estratégia imperialista para consolidar cada vez mais o poder, usando pretextos para derramar sangue de inocentes para impor suas regras no 3º mundo e principalmente no oriente médio, que, em vez de mudar aumentam cada vez mais o ódio dos oprimidos.
Aqueles que lutam por objetivos idealistas: contra a ALCA, globalização, imperialismo, não passam de Dom Quixotes lutando contra moinhos de vento.Tudo está indo rio a baixo -o caos dominando a ordem- explicitamente, e aqueles que se indignam, falam apenas para surdo ouvir.
Se voltarmos ao passado, na revolução francesa veremos que todos sonhavam com um mundo melhor e a esperança era grande, mas se tratando de revolução a definição de Kafka é elementar: “Depois da revolução o que resta é a lama da burocracia”, se na revolução francesa a burguesia usou o povo para tirar a aristocracia do poder, uma vez vencida a guerra, o povo voltou ao seu posto de escravo.
Logo após houve a revolução industrial, as máquinas começaram a tomar o lugar do homem (do povo), o que fazer então com o ser humano (afinal somos cristãos e devemos amar o próximo como a nós mesmos), e num gesto nobre inventaram o homem como apertador de parafuso, que não pensa, não questiona e no final do mês terá um salário para se manter.
Com a entrada do século XX, o modernismo avança destruindo os valores estabelecidos desde a antiguidade como o vulcão que devastou Pompéia; as artes, o homem, Deus, respeito, são enterrados de vez em maio de 68, a ordem se torna a não-ordem, é proibido proibir ou, seja marginal seja herói. Arte? Arte é coisa de elite, logo todo mundo é artista.
Como disse Dostoiévski : "Se Deus não existe, tudo é permitido", então pra que dar cultura, vida, dignidade para os humanos-insetos, se o sol irá explodir dentro de cinco bilhões de anos e o que vale é juntar fortuna para garantir um lugar em um outro planeta para próximas gerações da elite?
Assisto o horário político para ver os idiotas inteligentes, que com sua retórica hipnotizam os telespectadores das novelas, prometendo saúde, educação, emprego, num óbvio déjá vu, quem será o gênio, ou melhor, o santo que mudará esse país? A saúde é um teatro, a educação uma ficção; alunos com ensino médio completo não conhecem um grande escritor, um poeta, um artista, uma teoria cientifica. Arte? Virou comédia séria, entulhos de inutilidade que só chega a uma elite burguesa (pra quem não sabe o que era antiburguês se tornou burguês) quem no Brasil sabe o que é arte intelectual ou conceitual, a não ser alguém que estudou anos de faculdade de arte para saber ou fingir que entende e gosta do que é despejado na bienal internacional de arte de São Paulo e nos salões de arte, para que serve tal arte? Eis uma questão a ser debatidas por filósofos, se é que a filosofia também não morreu, como afirmam muitos, afinal quem é o grande filosofo pós Foucault?

Marcos Ribeiro
19 de agosto de 2006

Monday, June 26, 2006


"Atualmente não existe -em arte-nada mais descontemporaneo do que a arte contemporânea” ·

(Oriebir Socram)

Wednesday, June 14, 2006

“A arte contemporânea é como um rio poluído, que há algum tempo foi cristalino. O próprio homem o poluiu com lixos. E hoje ninguém mais pode nadar em suas águas nem contemplar a sua beleza”.

Marcos Ribeiro

Saturday, June 03, 2006

AS FORMAS DO FALSO: DESCONCEITUANDO A “ARTE CONTEMPORÂNEA II ”


AS FORMAS DO FALSO: DESCONCEITUANDO A “ARTE CONTEMPORÂNEA II”

Marcos Ribeiro
“Isso implica, por exemplo, a liberdade de pensar que a ‘Gioconda’ é um quadro muito ruim. É melhor ter uma opinião pessoal pela qual estou pronto a combater do que não ter opinião nenhuma. A massificação conduz ao desaparecimento do julgamento pessoal”.[1]
Com o surgimento da primeira guerra mundial, artistas traumatizados com a civilização questionaram os valores artísticos ocidentais que foram estabelecidos a partir do Renascimento, valores que foram buscados na Antigüidade clássica greco-romana- onde foram criadas as direções da arte: à imitação da natureza, a posição e a função do artista na sociedade.
Após o primeiro manifesto artístico dos futuristas em 1910, assistimos ao desencadeamento de diversos ismos: O dadaísmo, surrealismo, vortcismo, suprematismo etc.
Mas foi o dadaísmo quem mais influenciou a arte desde seu surgimento, em 1916, até os dias atuais, com a sua pregação niilista, como na frase de Paul Dermée: “Dada mata Deus! Dada mata tudo! Dada antitabu” .[2]
E com a estratégia do deslocamento que Marcel Duchamp introduziu na produção artística, fato ocorrido em 1917, quando enviou a uma exposição um urinol com a assinatura R.Mutt (nome de uma empresa que fabricava artigos sanitários), criando com esse gesto o primeiro ready- made, estabeleceu-se assim, com a ajuda de pessoas influentes no mundo da arte, que o espaço é que define o valor estético da obra, independente de se tratar de um objeto industrializado ou não.
Mesmo com o fim do Dadaísmo como atividade de grupo por volta de 1921, continuam os profetas anunciando a morte da arte, como Joseph Bueys que afirmou que “Toda e qualquer pessoa pode fazer arte”.[3] Ou seja, basta qualquer um dizer que alguma coisa é arte (seja um copo, uma mesa, um cavalo, uma árvore, uma pá de neve), que estará realizando uma obra de arte. Nesse pressuposto encontra-se a idéia de que estava decretado o fim do fazer humano e da técnica, como no caso do desenho e da pintura. Morte que às vezes é negada por pintores como Edward Hopper, Francis Bacon, Lucian Freud, David Hockney, Giorgio Morandi, conseguindo contrariar o mercado das vanguardisses cerebrinas e conseguindo se consagrarem gozando do mesmo status dos antigos mestres da pintura.
Mas a ausência de valores é o que predomina no universo dos modernos controladores das artes, como observou Teary Teachout:

"Eles não acreditam na beleza, alegando que nada é bom, real ou belo em si. Pelo contrário, “bondade”, “beleza”, e “qualidade” são conceitos que os poderosos impõem aos fracos por propósitos políticos. Portanto, não pode haver grande arte nem grandes artistas (com exceção de Marcel Duchamp, o santo padroeiro do pós- modernismo e sua figura exemplar). Shakespeare? Beethoven? Cézanne? Meras ferramentas capitalistas, utilizadas para anestesiar as massas e escorar as classes dominantes decadentes do Ocidente. Para o pós-modernista o acaso é tão bom quanto à ordem, o barulho é tão bom quanto à música e todas as declarações artísticas são feitas na mesma forma, embora aquela feita pelos fracos fosse mais iguais que as outras."[4]

No Brasil um dos movimentos que mais se aproximaram das vanguardas européias foi o Movimento Concreto que teve seus primeiros indícios em 1952, adeptos dos parâmetros encontrados no Neoplasticismo de Mondrian e Vatergerloo, no Suprematismo de Malévitch e nas concepções estéticas de Theo Van Doesburg. Uma idéia traduz o lema dessas correntes:




“Um quadro concreto é para ver, não para pensar, a composição observada no quadro deveria corresponder, exatamente, aquilo que o artista concebeu no projeto original da obra”.[5 ]
Mas foi no movimento que se sucedeu, o Neoconcretismo, que surgiram os grandes ícones da arte brasileira, quando as experiências da Ligia Clark e Hélio Oiticica desbordaram dos limites tradicionais da expressão pictórica, escultórica, para criar uma coisa nova na linguagem moderna da arte.A partir daí o que se fixa como arte das bienais, salões e galerias é a chamada “arte contemporânea”, onde a presença de Marcel Duchamp continua tão forte hoje quanto na remota época dos anos 20... do século passado.
Uma questão se impõe: o que é arte contemporânea?Se o futurismo teve como mentor Marinetti, o surrealismo André Breton, o abstracionismo Kandinsdy e Paul Klee, o cubismo Picasso e Braque, onde surgiu o nome arte contemporânea?
Affonso Romano de Sant’Anna nos explica:

“Foi posto em circulação pela Casa de Leilão Christie’s em torno dos anos de 1970, por razões de marketing e não por críticos e teóricos... apoderando autoritariamente da”contemporaneidade” exilando quem não adere a esse falso passadismo”.[6]
Existe uma falsa idéia (passadista), que se tornou um chavão usado até hoje pelos supostos “artistas contemporâneos”, de que com a invenção da fotografia não existe mais necessidade da pintura como cópia da natureza ou referência das realidades figurativas. Essa idéia, no entanto, é combatida por críticos de arte consagrados, como Ferreira Gullar que diz sobre o desenho:

O desenho é que permite ao artista penetrar na intimidade do real, tocar- lhe a cerne, estripa-lo, reestruturá-lo, transforma-lo. E, além disso, saber desenhar é possuir a realidade, de poder inclusive inventar sucedâneos. O desenho estabelece a ligação entre o mundo objetivo e a imaginação, entre a realidade e o sonho. Entre o universo individual e o universo social. [7]

Também Daniel Piza reflete sobre a instalação e a pintura:

Só se sabe que é fácil, ah como é fácil, fazer uma instalação e, com dois ou três segundos de observação (o olho assimila informações mais rápido do que se pensa), sentar e escrever uma "Britannica" em cima dela - assim como em cima de um toldo de padaria, ou de um buraco de agulha. A diferença é que a instalação está numa galeria ou museu. Mais uma vez, nada mais antimodernista - porque o moderno sempre se voltou contra a sacralização da arte em museus e galerias.
(...) uma pintura não dispensa conceitos, mas também não sobrevive deles. Fala direto à percepção, que é, biologicamente, uma relação entre a sensibilidade (sistema límbico) e o intelecto (córtex). Não dá para "negar" o sistema límbico; não dá para negar a reação química que uma imagem aciona assim que chega à retina. Disso se conclui, por exemplo, que, como o olho possui estrutura harmônica, não é à toa que temos um "senso" harmônico - um gosto pela harmonia, ora bolas.
[8]
Pensemos no paradoxo disto: nas exposições de arte contemporânea, enquanto muitas vezes as obras são feitos com material precário e de forma precária (lixo, coisas corriqueiras, desarmonia), já os catálogos, por sua vez, são confeccionados em alto padrão de luxo: papéis de altíssima qualidade, harmonia no design, preço exorbitante, que acabará muitas vezes enfeitando a estante de quem a comprar, não havendo a ausência de valores, mas a troca deles.


“Quando eles aparecem em leilões da Sotherby’s, em geral, são os próprios brasileiros que os colocam lá. Eles pagam US$ 1,5 mil para ter uma imagem da obra reproduzida no catalogo.É, no fundo, uma estratégia de mercado.” [9]

A arte contemporânea é hermética?
Para corroborar com o cartaz que Affonso Romano de Sant’Anna viu colado num tapume ao sair do Museu D’ Orsay com os dizeres:
“ Le grand public ne s’interesse pas à l’art contemporaine. Est- ce lês artistes contemporains s’interessent au grand public? “[10]
Fiz uma pesquisa com alunos do segundo e terceiro ano do ensino médio de uma escola publica, colocando a seguinte questão:
O que é arte contemporânea?
E nenhum dos alunos deu uma resposta satisfatória, que se aproximasse minimamente da realidade.
Que realidade é está ? A de arte que surgiu com Duchamp com seus ready-mades, passou pela arte conceitual de Joseph Kosuth, dito artista pensador, a pop arte de Andy Warhol que comprava arte no super mercado, as intervenções urbanas de Christo Javacheff e suas cortinas espalhadas pelas cidades, as estranhas body arts, como a do artista Rudolf Acwarzkogler que anunciou ter amputado o pênis polegada por polegada e as tripas com sangue do neoconcreto Hélio Oiticica.
Qual o papel da arte?
Fazer o ser humano refletir sobre e com a arte para buscar um mundo melhor?
Ou a arte tem de ser hermética e elitista para não fazer sentido nenhum?
Desde o final das grandes guerras, da guerra fria, da morte da arte, da morte de deus, da morte do homem, muitas coisas mudaram, e a arte que ajudou a transformar o mundo desde o Renascimento, hoje se paralisou diante da guerra do século XXI: O terrorismo fundamentalista religioso e criminoso.
[1] PHILIPE, Dagen .”Nas casas da correção” . Mais . Folha de São Paulo . pág. 07 . set. 2002
[2] SANT’ ANNA, Affonso Romano de.(2006) “Duchamp e o dada”.
http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=144
[3] GULLAR, Ferreira . “A forma e o novo” . Livro aberto . Opinião . pág.10, out. / nov. de 1996
[4]TERRY,Teachout.(2003)“À volta da beleza”.
http://usinfo.state.gov/journals/itsv/0403/ijsp/teachout.htm .
[5] Documentação e História . http://www.artbr.com.br/casa/ .
[6]SANT’ANNA, Affonso Romano de, “Desconstruir Duchamp”, Arte na hora da revisão. Rio de Janeiro : editora Vieira e Lent , 2003, pág. 127
[7]GULLAR, Ferreira, “Argumentação Contra a Morte da Arte”, editora Revan, 1993, pág. 149
[8]PIZA, Daniel.”Gullar enterra arte contemporânea”
(1993) http://www.revan.com.br/catalogo/0058a.htm .
[9] Sousa, Ana Paula . “Técnica. Pra que?”.In: Carta Capital.n.355, pág. 50-53, 17 de ago. de 2005
[10] SANT’ANNA, Affonso Romano de, “Desconstruir Duchamp”, pág 51



Desembaraçando esses equívocos, uma boa pintura nunca é a mesma quando se observa pela segunda vez, a cada novo olhar desperta um novo sentimento no expectador. No caso da arte intelectual contemporânea, que vemos nos salões e bienais onde sempre existe a busca obsessiva do novo, de causar impacto e chocar o público, por exemplo nas obras da 26ª bienal de São Paulo: um fusca pendurado por fios frágeis do artista austríaco Leo Schatzl, uma vez decifrado isso, qual a reflexão que se pode ter a posteriori? As 3.475 toras de madeira que estrategicamente ali estavam do artista catarinense Ivens Machado, que conseqüência trás para a humanidade?
Na música, onde porcarias são despejadas aos montes para o povo, e que, com forte investimento e marketing, fazem, por exemplo, um RBD e uma Tati Quebra Barracão se tornarem sucesso da noite para o dia.
O mesmo ocorre com as artes plásticas (ou artes visuais, como muitos agora chamam): criada por pessoas sem nenhuma aptidão, essa arte é vastamente divulgada, fazendo com que as pessoas a vejam como coisa sem nexo para estarem nos espaços sagrados artísticos. O mesmo quando ingressam nas escolas de arte, seguindo a moda e, se tiverem conhecimento com críticos famosos para escrever nos catálogos e nos jornais, têm grande chance de ingressarem para o grupo das grandes almas, grandes almas que antes necessitavam de talento, grande tempo de aprendizagem de técnica, e se tivessem uma boa imaginação criativa poderiam alcançar êxito.
Hoje o artista não mal aprende a construir e já sai destruindo, transgredindo e como é regra ditada por hierarquias, críticos e curadores, por receio, não falam nada; o público acata por falta de informação e medo de ser chamado de reacionário, antiquado ou passadista.
Outra questão se impõe: a arte contemporânea é exclusivamente mercado?
Se for levado em consideração a denuncia feita por vários escritores como na matéria que revista Carta Capital fez, poderemos chegar a uma conclusão sobre os mitos da arte contemporânea:


Saturday, May 06, 2006

10 mandamentos dos apertadores de parafuso
















1°Para que o livro se temos a vitrola?
2ºPara que o livro se temos o computador?
3ºPara que o teatro se temos o cinema?
4ºPara que o rádio se temos a televisão?
5°Para que a pintura se temos a fotografia?
6° Para que o homem se temos a máquina?
7º Para que o nome se somos número?
8º Para que cultura se somos boçais?
9ºPara que Caravaggio se temos Warhol?
10º Para que a arte se temos Duchamp?

Marcos Ribeiro
06 de maio de 2006

Thursday, April 06, 2006

Teoria do triângulo

Um triângulo é um triângulo aqui, no Afeganistão, no Pólo Norte ou até mesmo nos sonhos um triângulo continua sempre sendo um triângulo.
Mas, muitas vezes pessoas dominantes de um poder levam outras pessoas a crer que um triângulo é um quadrado, por meio da retórica, persuasão deixam as pessoas sem nenhum senso critico. Mesmo sendo algo de mais absurdo, desde que falem, fazem outros aceitarem tudo, sem existir a critica ou a dúvida.
Basta querer, alguém que tem poder, aponta para um quadrado e diz: isto é um triângulo, e como num rebanho de ovelhas todos seguem o pastor até o lugar desejado.
Isso acontece, sem dúvidas, nas artes plásticas, como disse Caetano Veloso:
“ Alguma coisa está fora da ordem.”
Incrível como são aceitas, tão facilmente, as obras de arte contemporâneas, incrível o discurso que eles usam.
O mínimo que se espera de uma obra de arte seria: poética e arte; admiração e contemplação. Mas é totalmente inverso, ninguém entende ou aprecia; vão numa exposição simplesmente por ir, para poder dizer: eu fui. Estou quase crendo que hoje estaria acontecendo com as pessoas o seguinte fenômeno: “ Eu gosto do que não gosto”. Não vejo outra explicação para alguém dizer que enxerga arte em Lygia Clark, Nuno Ramos,Nazareth Pacheco e toda essa crista da onda que invadiram todos espaços artísticos.
Quem questionar a ausência do belo, do prazer, da compreensão logo será taxado de saudosista, de alguém que vive com a cabeça no século IXX, ou que chora por algo que já morreu.
Se hoje no mundo capitalista tudo tem de ser fast, pragmático, onde tudo é a cultura do descartável, como por exemplo, na música ou nas novelas, que funciona com:1º Qualquer coisa, 2º marketing, 3º mercado e por fim rápido retorno financeiro. As artes plásticas deveriam se contrapor a isso, no entanto se tornou a mesma banalidade ou a mesma massificação: O marchand cria o nome do artista que expõe qualquer coisa, e depois vende facilmente a inutilidade. E o público vai ver e legitimar tais coisas. E tudo permanece neste niilismo.
Será que isto não faz parte do jogo do poder? Quem não distingue um quadrado de um triângulo, poderia questionar um político ou um sistema?
O sistema das artes não é a Rede Globo, uma empresa capitalista que domina a opinião pública; a arte é um patrimônio da humanidade, onde o que deve ser feito ou visto vai além do gosto de um grupo ou de uma agremiação que dita que uma coisa é uma arte, ou um triângulo é um quadrado.

Marcos Ribeiro
06 de abril de 2006

Sunday, April 02, 2006

Contradições da dita “Arte”

“A fotografia assumiu o gosto da vingança dos pintores fracassados.
(...) Um Deus vingador atendeu os pedidos dessa multidão.”
(Baudelaire)


Das duas vezes que visitei a Pinacoteca de São Paulo esse ano, cada vez com um atrativo diferente. Diferente em todos sentidos:
Na primeira denominada Lygia Clark- Do objeto ao acontecimento, o evento foi uma espécie de brincadeira , por exemplo: tinha um túnel de plástico ( onde muitos entravam e saiam dando risadas), tinha também: luvas, bolinhas, roupas de borracha etc. E muitos diziam: mas, isso não é arte. Sim, é óbvio, isso não é arte, é antiarte, a arte oficial que é chamada de arte contemporânea, mas que é bem mais antiga do que a televisão.
Também logo na entrada e por toda Pinacoteca, havia cartazes de publicidade do evento, enormes, para elevar a artista a um status de pop star, “tão muito para tão pouco” , como se alguém estivesse forçando, obrigando para todos aceitar que aqueles objetos corriqueiros são arte. Estudantes de artes não ir a esse evento é sacrilégio.
Isso me levou a pesquisar o sentido da palavra: Anti, que significa contra, oposição; a antiarte foi criada para contestar os valores estéticos consagrados e os museus, e hoje caiu na mesma armadilha se consagrando e se museuficando . Depois analisei outra palavra: Pinacoteca que significa coleção de quadros e obras de arte. Então cheguei a seguinte conclusão: essas coisas da Lygia Clark sendo antiarte jamais deveriam estar num espaço que existe para abrigar arte.
Seria viagem perdida se eu não aproveitasse que estava ali para ir ver os quadros do Almeida Junior, as esculturas de Rodin e tantas outras maravilhas do acervo permanente.
Mas de todas as asneiras da exposição da Lygia Clark, teve algo de bom: uma sala com vídeos de depoimentos de críticos e artistas , onde pude assistir o consagrado Ferreira Gullar que com sua coragem peculiar criticava “ferrenhamente” a dita arte contemporânea e até a Lygia Clark.
Algumas semanas depois soube da exposição “ Luz e sombra- na pintura italiana entre o Renascimento e o Barroco. Que contou com artistas como nada mais, nada menos que: Ticiano, Tintoretto, El Greco, Veronese, Ribeira entre tantos outros numa nota bem discreta no jornal”.
Ao chegar na Pinacoteca a primeira diferença: Nada de alarde ou a fanfarrice que havia na exposição da Lygia, na sala que estava a exposição outra diferença: A sensação de sagrado, o silêncio do público, reflexão, contemplação, admiração e o espanto diante de tanta beleza.
Isso me confirmou que o chavão que a fotografia matou a pintura não passa de um clichê. Nem Cartie Bresson que foi considerado o olho do século com suas fotos históricas seria capaz de parar um momento, paralisar o tempo num instante mágico como na pintura de um mestre.
A satisfação nas pessoas que ali estavam era notório, a certeza de estar vendo arte é incontestável. Os momentos que permaneci na exposição me purificou de todas as angustias do mundo moderno, elevou meu espírito e não é como uma exposição de arte contemporânea, onde saio do mundo do horror e eles jogam mais horror em cima de mim.
Com tudo isso ficam as seguintes questões: o que é melhor para o ser humano; a arte ou a antiarte? O belo ou o horror?
Na minha opinião os burros do artista Nuno Ramos são a resposta:
Eles são o retrato dos artistas e dos controladores da arte contemporânea.

Imagem: Vai-Vai, com 21 caixas de som e três burros-
obra de Nuno Ramos


Marcos Ribeiro
02 de abril de 2006

Wednesday, March 01, 2006

Desconceituando à arte contemporânea



“ Os artistas estão mortos e os vivos não existem.”


Uma das grandes questões filosóficas, é se existe uma verdade absoluta. No universo dos defensores da arte contemporânea isto não é mais questão, é fato: arte só se for “contemporânea” e não no sentido de ser uma arte do nosso tempo, como muitos confundem, mas como um rótulo criado pela casa de leilão Christie’s, no inicio dos anos 1970.
Até então uma obra de arte era: Talento. Exigência de arte, que foi substituído por conceito e por qualquer objeto, quer seja industrial ou deslocado da natureza.
O que antes era transformar o subjetivo do artista em realidade por meio da pintura, como um significado dado por Van Gogh a uma cadeira apenas pelo uso da cor ao exteriorizar a tristeza da extrema solidão (Cadeira com cachimbo de Van Gogh – 1888).Já na dita “arte contemporânea” Joseph Kosuth se torna um ícone da arte conceitual ao apresentar como obra de arte a descrição do dicionário de uma cadeira colocada ao lado da própria e de sua foto( Uma e três cadeiras – 1965).
É certo que a Christie’s, não é a única culpada de tudo isso, o charlatanismo artístico surgiu a partir do momento em que Marcel Duchamp comprou uma louça sanitária numa loja e a transformou em objeto de contemplação, A fonte – 1917, que ganhou o mesmo status de Davi de Michelangelo, seria “risível” se não fosse erudito ter que aceitar como objeto de arte apenas um urinol.
Com a morte de Salvador Dali em 1989 e Francis Bacon em 1992 é enterrada também a pintura figurativa.
A empulhação artística se consolida de vez. A técnica e o talento se tornam obsoletos, a esquisitice e a extravagância é o que se fixa como padrão até os dias atuais.
A pintura desaparece dos salões e bienais, o belo e o expressivo dão lugar ao bizarro e o cinismo.
Estou sendo radical ou não é esquisita uma jangada, e não é extravagante 3.475 toras de madeiras, ambas expostas na bienal de 2004. E de toda a produção que ali foi apresentada, o que será transmitido em épocas vindouras? Esse tipo de arte atinge a emoção? Causa algum impacto nos sentidos? Na minha opinião e na de muitos é frio, mecânico, inútil e sem nenhuma conseqüência.
Justificativas de que o mundo mudou e com isso mudou a arte, criam- se paradigmas para deixar na marginalidade os pintores que insistem em pintar figuras e que se inspiram nos grandes mestres.
E os amantes das artes plásticas que apreciam pintura, não tem o direito de conhecer as novas produções se elas não forem as aceitas pela moda artística.
Estou enganado ou isto não é uma forma de repreensão e opressão?
É isto que Afons Hug o ditador da arte no Brasil, chama de território livre? Que foi o tema da ultima bienal.
A mesma bienal por onde já passou Pablo Picasso, Cândido Portinari, Lasar Segall, Diego Rivera, Jackson Pollock e René Magritte, hoje têm que se contentar em ver os quadros medíocres da carioca Beatriz Milhazes e do belga Luc Tuymans, e as entendiantes instalações, intervenções e performances.
E se você não entende nada disto, não entre em pânico, é propositadamente hermético para ninguém entender, entender para que? Se entendessem deixaria de ser arte conceitual, e todos veriam que arte contemporânea é exclusivamente mercado- ou supostamente lavagem de dinheiro, se não, como explicar uma cama desarrumada e sobre ela garrafas de vodca e camisinhas da performer Tracey Emin, ser vendida por 225 mil dólares, qual o sentido disto? quem iria a uma galeria ver está cama ou usa-la como decoração na sala; será que está genial obra de arte ainda existe?
Com tudo isso muitos se perguntam como tais artistas se tornam ricos e famosos apresentando cadeiras, carros, roupas, garrafas, e até vislumbram alcançar essa gloria.
O que poucos sabem é que o valor da obra não implica se ela é boa ou ruim, mas sim por onde ela passou, quem a justificou, começando pelo Marchand que vincula o nome do artista a grandes galerias e grandes museus, e por fim o crítico famoso que escreve sobre o artista. Marketing infalível para abrir as portas das instituições oficiais e do mercado nacional e internacional.
Assim se fabricam os mitos da arte contemporânea, que podem ser comparados a santos religiosos, por que é preciso fé para crer no invisível e para enxergar arte aonde ela não existe.
Duchamp que quis criar a antiarte, e foi aceito na época como uma inovação, deixou vários herdeiros, que passou pela pop arte de Andy Warhol e a arte conceitual de Joseph Beuys, e hoje, depois de várias gerações, ainda está sacramentada como arte única e verdadeira, se tornando acadêmica em todas faculdades e escolas de arte. E que é defendida com veemência por seus seguidores, afinal houve uma democratização do que antes era para poucos e hoje qualquer pessoa pode ostentar o titulo de artista contemporâneo, basta falar que qualquer coisa é arte.
Goya, Caravaggio, Delacroix, Velásquez e Jhon Constable, nem pensar, quanto menos ver melhor, vai que alguém se sinta afetado pela beleza e a linguagem universal e comece a contestar a roupa invisível do rei, e impeça a erradicação da doença que se chama arte, pois o feio, a ironia é o que está em voga.
só que, entre arte contemporânea e arte autêntica existe uma diferença inexorável:
Uma “coisa” fora dos museus e galerias é apenas uma coisa.
Uma boa pintura fora dos museus e galerias continua sendo uma boa pintura.

Espero que não aconteça comigo o que aconteceu com Spinoza, quando ele contestou a religião de sua época, ser esfaqueado pelas costas. Spinoza que não costurou a camisa e quando as pessoas o questionavam por que motivo, ele dizia: para não esquecer o quanto é perigoso pensar.


* Marcos Ribeiro *
20 de fevereiro de 2006